~ CONTO 2 - Um Amor Que Vale à Pena

sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Se você perguntasse a Alice o que era amar, ela saberia responder. Agora sabia, Deus a havia ensinado. O que é melhor, Ele havia ensinado a quem amar. Mas nem sempre foi assim. Sentada na arquibancada da quadra, preocupadíssima, viu Willian passar, um pouco olhando de lado, procurando algo. Pensou e ficou feliz ao perceber do que Ele a havia livrado. Não que ele tivesse sido uma mal namorado, longe disso. Era carinhoso, atencioso, estava sempre presente quando ela precisava, mas Deus queria mais. Ou será que menos?

            – Ora bolas, isso não é hora de pensar nisso, o garoto caiu do palco em cima de uma bateria, saiu daqui com a cabeça aberta e eu aqui pensando nas minhas frustrações amorosas.

            – Alice, a mãe de Caio tá no telefone, quer falar com ela?

            – Quero, pelo amor de Deus! –pegou o telefone tremendo- Diga Dona Célia, como ele está? Está bem? Pelo sangue de Jesus, me diga!

            – Calma meu amor, está tudo bem. O corte foi um pouco grave, ele teve que levar uns pontos na cabeça, mas está tudo bem. Está dormindo agora.

            – Aleluia, graças à Deus! Fiquei tão preocupada. Parou tudo aqui. Preferimos não prosseguir com as outras bandas. Quando podemos ir vê-lo?

            – Acho que ele vai ter que ficar aqui amanhã, em observação por causa da pancada na cabeça, mas acho que segunda estamos em casa.

            – Será que poderíamos ir vê-lo amanhã aí? Poderíamos juntar todo pessoal do louvor e fazer uma visita.

            – Espere um pouco… Pode sim, meu bem. A enfermeira disse que amanhã é dia de visitas, Acho que vai ser bom pra ele.

            – A que horas podemos ir?

            – Espere… O horário de visitas é de 14:00hs até 18:00hs

            – Vou marcar com o pessoal de 14:00hs mesmo, porque temos que tocar no culto amanhã.

            – Está bem, vou ficar esperando.

            – Iremos. Até amanhã, então, fique na paz.

            – Amém.

            – Tome pastor, obrigado.

            – De nada, filha.

            Pegou sua mochila e foi andando em direção ao portão de saída. Que noite, hein? Parece que foi há 10 anos que eles estavam subindo no palco pra louvar. Ia pra casa, pois de manhã tinha EBD e à tarde visitariam Caio.

            – Ai, que cabeça a minha, esqueci de reunir a galera pra avisar! Devem estar na quadra ainda…

            No caminho de volta, topou com Willian de novo. Dessa vez, aos beijos com uma garota que ela nunca viu. “Coitada”, pensou. O fim do namoro de 3 anos pareceu ter afetado a cabeça de Willian, e o lindo moço de família, calmo, estudioso, responsável, havia se transformado num pegador irreconhecível. No início não acreditou no que diziam, até ver, agora, com os próprios olhos. Que baque! Então tudo aquilo era verdade? História cabeludas circulavam nas bocas dos jovens da igreja, mas ela não dava crédito, era impossível. Apesar de tudo, conhecia Willian. Mas, enfim, era verdade. “Mas foi você quem escolheu Alice. Decidiu fazer a vontade de Deus acima de tudo. Como Paulo, “ Pois não tenho minha vida por preciosa…”, sábias palavras. Será que Paulo teve uma namorada pra largar? Que bobagem, claro que não”. Alice deu uma olhada mais uma vez no grande amasso que acontecia no corredor, não conseguia distingüir quem era Willian e quem era a garota naquilo.

 

******

 

[2 meses atrás]

 

Aleluia, enfim hoje! Adeus cinesioterapia, traumato-ortopedia… Agora era férias! Poderia dizer que já tinha passado da metade do curso. Já era meio-fisioterapeuta.

            – Alô, amor? Tô livre meu amor! Nada de livros por pelo menos 1 mês e meio!

            – Que bom, minha linda! Passou em tudo direitinho?

            – Claro, né Willian? Quem você pensa que sou? Sou uma grande-futura fisioterapeuta!

            – E existe isso agora é?

            – Claro que sim! – sorriu gostosamente. O que ela queria mais? Aquele período tinha sido muito cansativo! Conciliar os estudos com o estágio no hospital, namoro e ministério não tava fácil. O pior é que a líder do louvor tava dando sinais que renunciaria, a bomba ia sobrar para a vice…

- Nunca vi isso! Deixa pra lá. Que vai fazer hoje de noite? Poderíamos comemorar!

- Ai, perfeito! Onde?

- Não sei, a noite é sua, você quem diz.

- Hum, deixa ver… Sei lá. Ah, já sei, tem um filme que tô doida pra ver, podemos ir?

- Hum, cinema, é? Pensei em algo melhor.

- Vamos… Podemos assistir o filme abraçadinhos, depois lanchar e sorrir juntos.

- Tá certo, a madame quem manda. Te pego às 19:00hs?

- Ótimo. Saio do hospital às 17:00hs. Vou ver o horário da sessão na internet.

- Beleza. Te amo muito sabia?

- Eu também, meu galego lindo.

- Tchau, beijão.

- Tchau.

            Como estava feliz. Olhou para o céu e agradeceu à Deus por tantas bênçãos, por tanta misericórdia. Compreendeu que Seu amor por ela era realmente incompreensível, ela não merecia. Pegou os fone do MP3 Player, começou a tocar sua música favorita, a música que estava tocando no carro de Marquinhos quando deu seu primeiro beijo em Willian. “We’ve found Jesus, he’s our great romance…”. Estendeu a mão para o ônibus que já vinha, sorridente. Aquele seria um ótimo dia.

 

******

 

            – Que horas você chegou ontem, filha?

            – Não sei, pai. Acho que umas 00:30.- Mentiu. A sessão de cinema se estendeu para a lanchonete, que se estendeu para a casa do Marquinhos que estava com a Pámela por lá, que se estendeu por alguns beijos bem quentes na calçada. Entrou em casa, precisamente, às 01:16hs.

            – Já não te disse pra não chegar mais de meia-noite em casa, meu bem?

            – Ô gordinho, meia horinha só. Me desculpa. Ontem foi uma dia especial, início das férias sabe? Tinha que comemorar. Passei em todas as cadeiras com louvor sabia?- Abraçou o pai por trás e fez carinho na barriga saliente. Era imbatível em acalmar a fera.

            – Parabéns, meu amor. Sua mãe ficaria orgulhosa!

            – É, eu sei. Agora tenho que sair, tô atrasada para o estágio. Fico de férias da faculdade mas a fisioterapia não me larga!

            – É, eu sei. Boa tarde.

            – Pai?

            – Sim?

            – O Marquinhos nos chamaou para um showzinho à noite na praça da Vila Velha, posso ir?

            – De noite? Mas não é muito longe pra você voltar sozinha com Willian?

            – Falamos com a mãe da Pan pra que eu dormisse lá. Se quiser te dou o número e você fala com ela.

            – Tudo bem. Mas cuidado, hein, mocinha?

            – Que é isso, velho? Não confia na garota aqui?

            – Claro que confio. Mas…

            – Então tá! Obrigado meu gordinho mais lindo do mundo!

            – Hum… Quando você fica falando assim é porque tem mais coisa por aí.

            – Ai, que horror! Claro que não! É só isso mesmo! Já vou, beijo.

            Acredite você ou não, o carinho de Alice pelo pai era sincero. Na sua mente realmente não se passava mais nada. Na dela, apenas.

 

******

            Quem tava cantando agora, mesmo? Não importa, só sabia que a banda era realmente muito ruim. Tão ruim que o barulho a deixava desnorteada.

            – Quando vamos embora daqui, Lice? Tô pra morrer com meu pé! Esse sabia que esse salto 16cm não ia combinar!

            – Pelo amor de Deus, vamos. Péra que vou chamar Willian e Maquinhos.

            – Amor,- gritou pra ser, pelo menos, entre-ouvida- Pámela tá chamando pra ir embora.

            – Péra amor, deixa terminar a participação dos meninos.

            “Que gosto horrível esses garotos tem pra música”- pensou. “Bem, em um relacionamento engolimos alguns sapos, não é? Até sapos que cantam e tocam mal.”

            – Beleza. Tô lá trás com a Pan, ok?

            – Tá certo, daqui a pouco a gente chega lá.

            O “showzinho” mencionado por Marcos já durava 2 horas e as garotas já estavam impacientes. Até agora, das 5 bandas que tocaram, nenhuma era boa. Na verdade eram terrivelmente ruins. Agora quem tava no palco era uma banda chamada “Blood Down”, lembrou. Uns amigos da faculdade do Willian tocavam nela.

            – Nome bem sugestivo dessa banda, não acha?- disse Pámela.

            – É, né? Bem down.- Sorriram, apesar da leve irritação.- Me vê uma coca, por favor?

            – Acho que acabou moça. Só temos Fanta, Antártica e Skol.

            – Cerveja? Aqui?

            – Cala-te Lice. Sabes muito bem que nesses lugares não tem divisão, né? Nem todas as pessoas que vem pra esse tipo de show são cristãs, e esses caras não vão perder a oportunidade de vender.

            – Mas não entra na minha cabeça…

            – Deixa isso pra lá, amiga. Olha, lá vem eles. Pede teu refrigerante e vamos embora daqui logo. Meu pé tem uma bolha do tamanho da cabeça da Estátua da Liberdade.

            – Exagerada.- Sorrindo, dirigiu-se ao balconista- Me dê uma Fanta mesmo.

            – R$ 2,50

            – É uma lata, tá?

            – Isso mesmo.

            – Nossa, que roubo, pelo amor de Deus! Cadê a arma? Me dê assim mesmo.

            – E eu sou a exagerada, hein?

            – Você tava certa, esses caras não perdem a oportunidade mesmo.

            – E então, meninas?- Disse Marquinhos assim que chegaram.- Vamos? Amor, vem cá que eu quero falar rapidinho contigo. Alice, licença Desculpa tá? É bem rápido.

            Marquinhos arrastou Pámela pra um pouco mais longe, onde não poderiam ser ouvidos.

            – Com o barulho que aquela banda tava fazendo nem precisavam ir pra muito longe. Bastavam virar as costas, isso pra não podermos ler o lábios, né?

Sorriram. Ele abraçou ela e disse:

- Sabe que eu te amo muito, né?

- É a segunda vez que você pergunta isso em dois dias…

- É pra você ter certeza.

- Mas eu tenho. Você acha que não?

- Não é isso. Deixa pra lá. E você, me ama muito, magrela?

- Magrela, é? E você seu albino. Claro que te amo muitíssimo, seu besta.

Ele levantou-a em seus braços e deu um grande beijo. O barulho da nova banda que já estava no palco, sumiu magicamente. Na verdade, o mundo se dissolveu ao seu redor. Ela só sentia aqueles braços fortes ao redor da sua cintura, le suspendendo até a Lua, e o sabor daqueles lábios. Era como se nada existisse nem antes, nem depois. Tudo se resumia aquele momento.

- Ôpa! Calma aí gente- disse Marquinhos que já voltava com Pámela.

- Obrigado amigo- disse Willian ajeitando as calças.

- Nada cara, disponha.

- Engraçadinho. Vamos?- disse olhando para Pámela.

- É-  parou um pouco- Vamos.

Andaram um pouco até onde o carro de Marquinhos estava estacionado. Pámela retraiu um pouco o passo e fez com que Alice andasse mais devagar também.

- Amiga, o Willian vai ter que dormir lá em casa também, algum problema?

- O quê??- sobressaltou-se- Quer dizer, tudo bem, a casa é sua, mas porquê?

- É que uns parente dos Marcos estão na casa, dela. Aquele pessoal do interior sabe? Daí não tem lugar pro Willian. Nem o sofá escapou.

- E sua mãe, que vai dizer?

- Nada, mamãe é limpeza, tu sabe!

- Hum. Meu pai não vai gostar de saber disso.

- Não precisa contar, né? Ou você vai chegar em casa e detalhar pro papaizinho até quantos R$2,50 teve que pagar pra beber refrigerante…

- Ok, ok, já entendi. Tudo bem, né? O que pode acontecer de mal?

- Pois é, ele pode dormir no quarto do Lucas e você vai ficar sã e salva no meu.

- Ok.

 

 

******

 

            – Sabia que eu tinha esquecido de algo.- Levantou-se procurando pela bolsa.

            – O que foi?- Disse Willian.

            – Meu celular. Desliguei na praça porque já tava descarregando e não ia conseguir ouvir, caso tocasse, naquela barulheira na praça.

            – E porquê o sobressalto. Quem vai te ligar uma hora dessas?

Eram 00:54 hs, faziam apenas 10 minutos que haviam chegado. Estavm sentados no sofá enquanto Pámela pegava comida na cozinha.

- Ah, você não ta entendo. É marcação serrada. Espera um pouco.- Instantaneamente o sinal de mensagem soou:

“Seu celular tem 12 chamadas de…”

- Não te disse.

- De quem é?

- Meu pai, ora?

- Nossa, marcação mesmo, hein? Ele ta com medo de quê? De você ser devorada pelo monstro?

- Bobo! Não. É que desde que mamãe morreu ele me trata assim. Mas é preocupação mesmo. Acho que na cabeça dele eu nunca cresci em nunca vou crescer. Sempre a menininha do papai.

- Como ele não vê que a menina se tornou um mulherão?

Ela corou as bochechas. “Ainda bem que está um pouco escuro”, pensou. Ele se aproximou mais um pouco, à ponto de estar com as pernas juntas. Seus pés fizeram um entrelaço e aproximaram os lábios…

- Só tinha macarronada do almoço mesmo, serve?- Pámela entrou com uma travessa enorme nos braços.- Desculpem, vou pegar refrigerante.

- Aqui não custa R$2,50, não é?

- Não, meu bem, aqui é mais caro, não está incluso na diária.

- Acho que vou tomar banho antes de comer, posso?- perguntou Alice.

- Claro, sabe onde é o banheiro lá de cima, não é? Não quer tomar banho também Willian? Você pode pegar uma roupa do meu irmão. Sobe com Alice, é o primeiro quarto depois do meu.

- Beleza.

            Durante o banho, Alice ficou pensando na situação. Willian simplesmente a deixava confusa. Quando estava com ele, sentimentos e emoções eram despertados que ela nem sabia que poderia sentir por alguém. Não era a primeira vez que namorava, mas com aquele garoto era diferente. Willian era diferente. Era tudo o que ela pediu a Deus. Inteligente, trabalhador e lindo, muito lindo. Nossa, aqueles braços, aqueles olhos, aqueles lábios… Sentiu um pequeno arrepio na espinha.”Calma garota, que é isso agora?”, pensou.

            De volta ao andar de baixo, encontrou Pámela e Willian sentados no sofá, comendo e sorrindo de alguma piada recém contada por Willian. “E ainda tem bom-humor”. Olhou sonhadoramente para o namorado, como se fosse um anjo que acabara de pousar no sofá de sua melhor amiga.

            – Começaram sem mim? Obrigado!- disse.

            – Ô, amor. Senta aqui do meu lado, vem!- disse Willian.

            – Venha curtir a melhor macarronada requentada da cidade!- disse Pámela.

            – Tome, já tirei um pouco pra você- disse Willian- está bom assim?

            – Ótimo. Me passa o refrigerante, Pan?

            – Todo seu, lady!

            Passaram o resto do jantar improvisado conversando e rindo das bandas que haviam tocado no show, fazendo planos para as férias e comentando sobre o dia seguinte.

            – Tenho reunião do grupo de louvor depois da EBD- disse Alice.

            – O que foi dessa vez? Povinho complicado, hein?- disse Willian.

            – Não sei. Foi a Marcela quem convocou, mandou umas sms essa semana. Sei não, acho que ela quer renunciar.

            – Ihhhh… Vai sobrar pra você amiga- disse Pámela.- Tô tombada, vou subir.- Já foi se levantando.- Amanhã ajeito essa bagunça.

            – Espera que eu vou subir também.

            Enquanto se levantava, Willian pegou em seu braço forte, porém carinhoso e disse:

- Espera, fica um pouco comigo aqui antes de subirmos.

- Hum, não sei.

- Calma, meu amor, relaxa.

Olhou pra Pámela pedindo socorro.

- Você que sabe. Não vejo problema nenhum.

- Ta bom. Pode ir subindo Pan, já chego.

Sentaram de volta no sofá. Willian olhou profundamente em seus de um jeito que, ela pensava, só ele conseguia fazer. Pegou em seus cabelos, alisou-os, ainda molhados.

- Posso te perguntar se tu sabes que eu te amo de novo?

- Nossa, como você insiste no assunto, hein? Claro que te amo muito, como nunca amei ninguém nem nada na vida. Meu coração está totalmente em tuas mãos, sinto vontade de passar o resto da minha vida e mais um pouco ao seu lado, curtindo cada momento. Eu poderia…

Ele não esperou mais nenhum palavra. Abraçou sua amada e beijou-a. Seus lábio se encontraram e Alice sentiu mais uma vez aquele arrepio na espinha. Willian envolveu seu corpo ainda mais e sentiu o receio nos músculos rígidos dela. Aproximou os lábios do seu ouvido e sussurrou quase inaudivelmente: “te amo”. Todas as reservas de Alice cederam e eles voltaram a se beijar muito mais intensamente que antes. O coração da moça disparou como nunca ela tinha sentido antes. Aquilo era diferente. Mais diferente do que qualquer coisa que ela tinha sentido até ali. Não tinha pra onde correr. Era simplesmente maravilhoso. Estava nos braços fortes de seu amado, beijando-o como se não houvesse depois, ali, só eles. Os braços de Willian foram passeando até que sua mão direita encontrou a nuca de Alice. Ele pegou em seu pescoço de um modo carinhoso, mas forte, que fez Alice se arrepiar mais uma vez. Sua mão foi descendo para suas costas, sentindo cada músculo. Ela estava completamente perdida, confusa dentro de si, mas sabia que estava gostando, ele, pelo contrário, sabia exatamente onde, quando e como ia chegar. Quando sua mão alcançou a base da coluna de Alice, fez carinho até perceber que ela estava completamente cedida. Então desceu. A primeira reação foi de choque, mais uma vez ela enrijeceu os músculos, travando de medo. Ele voltou os lábios para seu ouvido mais uma vez e sussurrou:

- Calma, você está com seu galego. Nada de mal vai acontecer.

As palpitações do coração de Alice chegaram ao ápice, o suficiente para matar alguém que sofresse de doenças cardíacas. Ela não sabia o que fazer, perdida em emoções que ela desconhecia.

- Calma meu amor, sou eu que estou aqui.

Aos poucos o medo foi cedendo. Ele percebeu a deixa e voltou a acariciar suas costas, descendo suavemente até voltar ao ponto em que parou. Juntou seu corpo ao dela, cadê vez mais próximo. Aos poucos foram se reclinando, até estarem completamente deitados no sofá. Dali à frente, Alice não sabia se quer onde estava. Tudo era um misto de medo, prazer… Prosseguir ou para aqui. Ela sabia onde aquilo ia parar. Será que ia parar? Mas ela não tinha forças se quer de falar, muito menos parar. Pensou nos pais de Pámela e a própria que estava no andar de cima, sem saber o que se passava ali em baixo, no sofá de sua própria sala. Esse pensamento amendrontou-a, fazendo-a recuar. Ele a beijou loucamente, e logo ela esqueceu mais uma vez do tempo e espaço.  A mão de Willian já trabalhava sozinha, independente. Ele sabia exatamente o que fazer. Estavam ali, pareciam prontos para consumir um ao outro…

“…We’ve found Jesus, he’s our great romance, …We’ve found Jesus, he’s our great romance, …We’ve found Jesus, he’s our great romance, Holy is the Lord!”

“Eram os céus que estavam cantando aquilo”, pensou. “Só podia ser um anjo”.

Os acordes daquela estrofe pareciam ter acordado Alice de m profundíssimo sono.

“Nós encontramos Jesus, Ele é o nosso grande romance[...] Santo é o Senhor…”

Ela levantou-se de sobressalto. O short e a camiseta que usava estavam desconjuntados no corpo.

- Calma, amor…

Ela olhou pra si e sentiu-se nua. Olhou para Willian e sentiu nojo. Ânsia de vomitar, literalmente.

“…We’ve found Jesus, he’s our great romance, …We’ve found Jesus, he’s our great romance, …We’ve found Jesus, he’s our great romance, Holy is the Lord!”

O celular insistia em tocar.

O desespero de Alice fez com que não pensasse direito. Simplesmente pegou o celular na bolsa ao lado, rejeitou a ligação e saiu correndo. Correr? Correr pra onde? Viu uma porta à sua frente com uma chave. Nem sabia pra onde dava. Abriu e viu, um pouco borrada pela lágrimas que já desciam, a avenida da frente da casa de Pamela.

- ALICE, ALICE- berrava Willian- ALICE VOLTA AQUI. PODEMOS IS DORMIR E ESQUECER TUDO ISSO!

Ela já estava no outro lado da rua. As palavras de Willian só a fez sentir pior, e a ânsia de vômito voltou ao alto de sua garganta. “Esquecer? Como assim esquecer aquilo?”. Andou e correu desesperadamente, sem rumo, de roupa íntima. Andou por cerca de 40 minutos até se acalmar. Seu rosto estava totalmente lavado pelas lágrimas, seus olhos ardiam raivosos. Parecia que o seu pesava 390kg em sua cabeça. Parou em uma viela e tentou abrir a bolsa. Felizmente, a roupa que usou na noite estava dentro dela. Trocou de roupa e sentou pra poder pensar melhor. Onde estava? O que ia fazer agora? Olhou a hora no celular: 3:14hs. Olhou e viu que o chamado do seu que a despertou era, na verdade, seu pai.

- Ô, pai. Até aqui o senhor me salva. Como vou resolver tudo isso?- começou a chorar novamente.

Entres os olhos pode ver que no fim da estrada vinha um carro. Percebeu que, à medida que se aproximava, ia diminuindo a velocidade. Quando chegou bem perto, parou.

- ALICE?

Olhou e não viu direito de quem se tratava.

- Alice meu bem… O que foi isso? Porque você está aqui à essa hora, meu amor? Olha seu estado.

Alice se abraçou com a Irmã Anaí e começou a soluçar e tremer de tão desesperado que era seu choro.

- Venha, entre em meu carro. Sua casa não é no centro? Estou inda na direção dela, estão com meu pai no carro aqui atrás, vamos levá-lo ao hospital.

Quase não conseguiu entrar no carro, tal era seu estado nervoso.

- Venha, deite-se ao meu lado.

As forças de Alice estavam concentradas em chorar. Àquela altura ela não sabia nem porque chorava. Estava salva, iria pra casa. Mas o choro simplesmente vinha à alma.

Quando estava mais calma, Irmã Anaí a olhou e disse:

- Escute. Não preciso que você me conte como foi parar ali. Apenas me diga para que eu não fique preocupada: Algo aconteceu fisicamente com você? Você foi machucada violentada, algo desse tipo?

- Não irmã. Gostaria que a senhora confiasse em mim. Nada aconteceu comigo, mas não me sinto bem para conversar sobre essa noite ainda.

- Está certo, não se preocupe, confio em você. Se você está me dizendo, fico mais calma.

Ao chegarem à porta da casa de Alice, Anaí virou-se para a jovem e perguntou:

- Bem, comigo você não precisa falar, mas terá que contar algo para seu pai.

- Não se preocupe. Com ele eu me resolvo. Irmã, a senhora foi o 2° anjo que Deus me enviou hoje. Ele realmente estava comigo. Muito obrigado, não tenho palavras pra agredecer…

- Agradeça se cuidando! Aliás, depois temos que conversar. Essa noite está sendo longa e louca o suficiente. Vi uma certa pessoa fora do lugar onde deveria estar essa noite além de você, mas, acredito, em situação absolutamente diferente.

- Está certo.

Quase entrando no carro, Anaí virou-se e, quase maternalmente, disse:

- Sabe, hoje li um versículo na palavra de Deus que me tocou muito. Está escrito no livro de Salmos, capítulo 103, versículo 13: “Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem”.

Entrou no carro e fechou a porta.

As lágrimas voltaram aos olhos de Alice, mas dessa vez lágrimas diferentes.

 

******

 

A tempo passou arrastado para Alice. O que eram pra ser dias de folga e alegria tornaram-se um pesadelo. Após um tempo se recusando à contar ao pai o que aconteceu e pedindo sua compreensão, decidiu encarar a verdade e conversar. Ele ouviu atentamente e, no fim, não falou nada. Os olhos de Alice já estavam cheios de lágrima, quando ele disse:

- Tenho orgulho de você.

Pamela teve que inventar uma mentira mirabolante para explicar aos pais o problema daquela noite. Acabou por ficar de castigo e perdeu toda a mesada do mês de dezembro. “Dos males o menor”, pensou, “ se eles soubessem a verdade, provavelmente me tirariam a mesada pra sempre e ainda me fariam trabalhar pra pagar todos os custos que tiveram comigo até agora”.

 A amizade com Pámela e Marquinhos acabou, pois, após rever os fatos, entendeu que os dois estavam metidos naquilo.

- Mas amiga, ele me convenceu. Disse que não era nada de mais, que o Willian apenas queria ficar um pouco mais à vontade com você. Eu não ia adivinhar que você ia dar um “pití” daquele!

- Pois deveria me conhecer melhor, Pamela. Me desculpe, não sinto raiva de você. Já orei e pedi a Deus que trabalhasse no meu coração por isso. Mas não consigo confiar em você mais.

Willian ligava pra Alice o dia todo, mas ela não estava pronta pra falar o que fosse com ele. Na igreja, evitava encontrá-lo e, quando acontecia, abaixava a cabeça e saia correndo. Simplesmente não estava pronta. Aquilo doía muito, pois, apesar de tudo, amava-o como nunca amou ninguém. Não consegui decidir se era pior a dor do amor ou a dor da alma.

Certo dia, andando sem rumo, mente pesada, pensando em tudo isso, ainda extremamente pesarosa e sem saber que rumo dar à sua vida sentimental, decidiu ir à igreja.

- Tem o que lá essa hora hoje?  Ah, ensaio dos adolescentes…

Foi mesmo assim.

Entrou e sentou no último banco. Ficou observando aquelas pessoas recém saídas da infância dedicar sua tarde de sábado à adorar ao Senhor. Olhou de lado e viu uma bíblia bem caprichada com desenhos do Smilingüido na capa. Abriu e leu o versículo escrito à caneta vermelha:

“Mas em nada tenho a minha vida como preciosa para mim, contando que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” Atos 20.24

Entendeu imediatamente a resposta de Deus.

 

- O que está fazendo mexendo na minha bíblia??

- Ah, Camila, é sua? Desculpa, tava só lendo o versículo…

- Nada, boba, tô brincando!

Abraçou Alice sorrindo e voltou correndo para ensaiar. Antes de se ajoelhar, Alice ainda pôde ouvir:

- Desculpa, fui só beber água e parei pra dar um oi pra Alice…

Ajoelhada e chorando, Alice orou:

 

“Senhor Jesus, só posso dizer obrigada. Obrigada pela sua fidelidade que me salva de laços que me enlaçam e tiram minha vida. Obrigado por ainda se lembrar de mim e enviar anjos que me acompanham e são usados pelo Senhor para me livrar. Obrigado por me responder, agora entendo sua vontade. Confesso diante do Senhor que ainda amo Willian. Não posso mentir diante de Ti, Rei. Amo-o muito. Mas sinto que esse amor está tirando Seu lugar no meu coração e não quero, de forma alguma, que isso aconteça. Mais do amo Willian e à mim mesmo, eu quero Te amar. Te amar ao ponto de dizer como Paulo, ‘mas em nada tenho minha vida por preciosa…’ Por isso, nessa tarde, rasgo minha alma e dilacero meu espírito. Mutilo meu querer para oferecer como sacrifício. Eu sou Tua, apenas Tua de mais ninguém. Sei que o Senhor é fiel e terá compaixão de mim, pois sou Tua filha, e me tirará desse abismo…”

 

******

[aproximadamente 2 meses depois]

 

Alice deu uma olhada mais uma vez no grande amasso que acontecia no corredor, não conseguia distingüir quem era Willian e quem era a garota naquilo. Virou nos próprios calcanhares e retornou ao seu caminho. Enfim, estava liberta.

~ INTRODUÇÃO - CONTO 1: "NARCISO"

quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Com esse acúmulo de criatividade inútil que tenho, há uns 2 anos comecei à escrever alguns contos e tive vontade de publicá-los aqui. Não precisa explicar que são extremamente amadores, "teen" demais e muitas vezes até ingênuos, mas são de boa causa, valem para ensinar algo. Algumas pessoas até conhecem-as, chegou a hora de um novo público. xD Foram três estórias independentes, porém sutilmente ligadas.

Relembrando desses contos, então, me reviveu a vontade de escrever. Vamos o que sai agora, depois de 2 anos. Por espero que vocês se divirtam com essas bobagens que escrevi. LET'S GO!

-

CONTO 1 - "NARCISO"

Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiin.

- Já? Sabia que não dar tempo, droga.

Segunda-feira por si só já não é das melhores coisas do mundo. Segunda-feira de manhã, semana de revisão para os testes finais, o fim. Abriu a carteira, pegou R$5,00 e pagou a conta do lanche que ele não ia comer, pegou suas coisas e saiu da cantina. “Quem se dá bem com isso é Dona Rosa” pensou. A noite tinha sido um pouco longa, esticou o horário do papo na net após o culto, dormiu tarde, por isso saiu correndo quando abriu os olhos na cama e viu que já estava atrasado 30 minutos.

Cristãos há 6 anos, sua família teve testemunhos dignos de serem ouvidos. De boa situação financeira, seu pai largou um emprego onde era gerente geral de uma rede de lojas e devolveu cada centavo que roubou com negociatas para beneficiar certos fornecedores. Hoje, depois de um longo e turbulento período, conseguiu se estabilizar com base na honestidade e temor no Senhor. No início, a igreja era novo para Caio. Aquelas pessoas sorridentes e cantantes eram simpáticas e acolheram a família como acolheriam qualquer outra. O tempo foi passando e Caio foi se envolvendo no que chamavam de “a obra”. Aprendeu bateria e passou a tocar no grupo de louvor, onde também foi acolhido. Hoje, era umas da peças fundamentais do ministério, mas não se preocupava muito com seu compromisso, afinal, 3° ano, vestibular, as pessoas tinham que entender. A empolgação do início tinha sido substituída pela rotina e pelo desejo único de tocar e os sorrisos tinha se tornado um monte de dentes de pessoas que ele considerava, na maior parte, falsas, chatas e irritantes.

- Deveriam proibir aula na segunda-feira! Mas também, porque Alice tinha que ficar conversando lorota no fim do culto. Todas aquelas regras eu já sabia, ela não precisava ficar repetindo que os membros do ministério não podem ficar fora do Templo para dar exemplo, blá, blá, blá. E ainda ameaçar não tocar no Louvorzão… A pregação tava um saco! Foi o quer mesmo? Davi de novo? Ou foi Josué? É, acho que foi Josué, tem um livro na Bíblia com esse nome… Ah, sei lá, o importante é que, se ele não tivesse que ficar ouvindo sermão teria chegado cedo em casa e não dormiria tão tarde. Sendo assim, não se atrasaria e nem teria que enriquecer a dona da cantina pagando o que ele não ia ter tempo de consumir. Que saco, acho que…

- Estás resmungando do que garoto?

- Wow! Assombração é? Ta me espionando e me seguindo é, garota?

- Ops, desculpa, TMP é, linda??

- Hahaha, engraçadinha. Não, sono e fome mesmo. Fui dormir tarde e tô aqui acabado.

- Hum, aqueles teus amigos da Pub’s de novo?

- Não. Quer dizer, mais ou menos. Não é da forma que tu ta pensando. A gente só ficou conversando no MSN em conferência ontem, o papo ficou bom e saí do controle.

- Menos mal…

- Que é, aprendi a lição, tá?

- Sei, sei. Te conheço Caio Accyolle…

- Olha, quer saber CAMILA SOARES??? Não te devo satisfação, belê. Dá licença que agora eu tenho 2 aulas enormes e maçantes de filosofia. Tchau que o gatinho aqui vai assistir aula.

A menina retomou seu caminho se perguntado se realmente a cabeça dele ia estar dentro da sala e desde quando ele tinha incorporado “belê” no vocabulário.



****

            – Como eu tentava dizer antes do senhor Raul nos atrapalhar com esse brilhante comentário, a função da mitologia, tanto grega como romana, era simplesmente dar explicações aos fatos. Ninguém, como até hoje, poderia explicar a origem do mundo. O que faziam os gregos? Criavam histórias fantásticas e fabulosas que assustavam crianças por seus monstros, enchiam de coragem os rapazes pela bravura dos heróis e faziam as mocinhas suspirarem por…

            – Hum, boa essa parte, hein galera?- disse Caio seguido por uma zorra incontrolável, comum naquela sala.

            – Oh, falou Don Juan, hein? Don Juan só se for da feira mexicana que nas sexta lá na praça do meu prédio!

            – Boa Marina! esse aí pensa que é Hércules mas é o próprio Narciso…

            – Cala boca CDF, tais falando porque é feia e ninhum garoto olha pra uma jamanta quatro olhos- disse Caio mais uma vez recebendo em resposta vaias e palmas de aclamação.

            – SILÊNCIO! Ora, SILÊNCIO!!!! Pois senhorita Jéssica, já que tocou no assunto, explique ao nosso galã quem é Narciso, por favor.

            – Antes de tudo, quero dizer que CDF é a vovó e, para sua informação, você pode não querer mas tem muita gente que vive atrás desse jaburu aqui, tá meu bem?- Mais barulho.

            – SILÊNCIO, já disse! Jéssica, que é isso? Dê-se ao respeito!

            – Direito de resposta, “teacher”!

            – Pois vá consultar seus direitos na Constituição Federal, na minha aula NÂO! Vai contar a lenda de Narciso ou não?

            – Ok, ok. Narciso vem da palavra grega que significa “auto-admirador”. Diz a lenda que Narciso era um moço extremamente belo que…

            – Olha, não é que a rolha ta certa, eu sou Narciso mesmo…

            – Posso continuar?

            – Vai, vai…

            – Narciso era tão arrogante e presunçoso- aumentou o tom nessas palavras- que preferia viver sozinho nos bosques, pois julgava que ninguém era digno de conviver com sua beleza. Certo dia, uma ninfa faladeira chamada Eco, condenada pela deusa Hera a apenas repetir o que outras pessoas diziam, viu o belo Narciso e se apaixonou instantaneamente. Resumindo, ao ver a ninfa, Narciso desdenhou e disse que nunca “possuiria” aquela criatura. Eco ficou muito frustrada e triste, e, diz a lenda, que, do alto do Olimpo, a deusa Nêmesis lançou um feitiço para que Narciso de apaixonasse pela própria imagem. Na cam…

            – Ora, me parece que temos uma Eco, sala, hein??? Matraca e feia…

            – Raul, vou ter que pedir que você se retire.

            – Tá professor, foi mal.

            – Na próxima, hein? Continue.

            – Obrigado professor. Parei onde? Ah, Enquanto caminhava, Narciso parou para beber num lago de águas puríssima. Imediatamente viu sua imagem refletida e se apaixonou. Sua paixão arrebatadora, porém, não poderia ser saciada, pois todas as vezes que tentava alcançar aquela bela criatura do lago, ela se desmanchava. E assim, acabou-se Narciso- virou-se para Caio e continuou- Belo, porém muito arrogante, definhou de amor por sua própria imagem.

            – Brilhante, um ponto extra no teste.

            – Obrigado.

            – Como vêem, com uma história apenas, os gregos explicaram o efeito sonoro do eco, hoje explicado pela física, e a fascinação de algumas pessoas por si mesmas, que hoje chamamos de vaidade, estudada pela filosofia. Ok, turma, próxima aula, teste, estudem, pois a notas de vocês estão um desastre, os boletins parecem filme de serial killer de tanto vermelho. Tcahu, tchau.

            – Ele poderia ter perguntado a lenda da princesa que tinha uma trança enorme e vivia presa numa torre, a Cinderela. Essa eu sabia contar. Ganhar ponto com história de criança é muito fácil!

            – É Rapunzel, cabeça de vácuo, e isso nada tem haver com mitologia grega ou filosofia.

            – Alguém pediu sua opinião, CDF?

            – Tá, permaneça burro. Lembre-se que a beleza de ninguém garantiu futuro.

            – Não? Vivemos no mesmo mundo Orca?

            – Seu filho da…

            – Opa, que é isso?

            – Nada fessôr.

            – Comportem-se, até a próxima aula, estudem.

            – Belê. Opa, vibrando.

            Caio pega o celular, abre o visor, vê uma cartinha e lê a mensagem:

“Desafio: quem escreveu “Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele”? Ass.: Camila.”

            – Vou embora, daqui!

            – Ainda tem aula de Ivo feiosa.

            – Puff, e tu ainda diz que é crente…?



****

            Narciso passou a semana inteira na cabeça de Caio. “Belê, não sou um exemplo a ser seguido, mas, qual é? Eu me comporto como crente sim! Tudo bem que houve aquele incidente na Pub’s, mas eu não tava fazendo nada demais, apenas um amigo precisou de um baterista… E eu não ia adivinhar que aquela irmã porre ia socorrer o pai e passar bem na frente de uma boate às 3:00hs da madruga. Nunca mais ele tinha aprontado uma dessas e, fora isso, ele podia ser chamado de crente. Aquele dragão é que não sabe o que fala. Narciso, hein? Pelo menos foi um elogio, me chamou de extremamente belo… Aquela coisa quer é me dar uns pega, mau amada.”



****



            Chegou sábado então, e lá estava ele em mais um ensaio. Alice introduziu com uma oração e leu a Bíblia, num versículo que Caio não prestou atenção. Estava mais interessado, é claro, nas viradas de bateria da música que iam ensaiar, afinal, nossa, o que era aquilo? Ele ia arrebentar, aquela era a vez dele brilhar! Sempre fazendo coisas básicas, marcando o tempo ou, no máximo, uns arranjinhos mixurucas por causa daqueles velhos insuportáveis que não sabiam o que era boa música. Mas no Louvorzão não, no Louvorzão ele ia, de fato, se destacar.

            Seus devaneios nada altruístas foram interrompidos pelo sinal de mensagem do celular.

            – Ops, foi mal, esqueci de colocar no silencioso…

            – Beleza, mas não esquece de novo,

            – Belê.

            Pegou o celular e checou a mensagem:

“Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” O autor da mensagem anterior chamava-se João, amigo do autor dessa, Mateus.”

            “Vixi, só podia ser”. Guardou o celular e voltou para dentro de si.



****

            “Essa noite de sábado está bem fria. Ainda bem cobriram o pátio”.

            Caio deu um nó rápido em seu novo All Star, especial para aquela noite, pegou suas baquetas preferidas e saiu. Era seu grande dia, o dia em que ia poder mostrar todo potencial. Era a noite! Todas aquelas bandinhas que ia tocar veriam o que é ter um baterista. Seu celular tocou, pegou e leu a mensagem:

“E então guri?O autor das últimas frases que te mandei eram discípulos de Jesus como eu e você. Hoje vai ser muito bom, tenho certeza que vou ver um exímio baterista no palco, mas gostaria de rever um exímio adorador”.

            “Camila de novo”- pensou. “Ela gosta de insistir no assunto”. Deu a “paz” ao irmão que estava na portaria e entrou.

            Procurou o pessoal e se colocou à postos pois o grupo de louvor da igreja ia ser o primeiro a tocar.

            “Hum que frio na barriga”. Hipnotizado pelos olhares da platéia enquanto se dirigia à bateria, não percebeu que o nó do sapato estava desfeito. “Meu Deus, estão todos olhando pra mim? Que máximo! É hoje, é hoje!!!”

            Já próximo da bateria, se enganchou no cadarço e caiu, derrubando toda a bateria do palco.  Sentiu-se tonto, passou a mão na cabeça e sentiu algo visgoso escorrer. O sangue já alcançava o pescoço e fez cessar risadas da platéia. Caio olhou ao seu redor e mal pode perceber a gravidade da situação. Sentiu-se enjoado, dormente, e simplesmente dormiu.

            Narciso encontrou seu lago.



****

            Segunda-feira por si só já não é das melhores coisas do mundo. Segunda-feira de manhã, hospital, tomando soro, é o fim.

            Depois de ter passado o domingo em observação, Caio finalmente ia poder ir embora. Terminou o soro e foi pegar suas coisas, enquanto sua mãe dava baixa no prontuário e assinava burocracias. Pegou o celular e percebeu que havia uma mensagem. Riu-se consigo. Sabia de quem era e até imaginava o que havia escrito ali. Mas agora era diferente. Ele tinha aprendido. O domingo no hospital serviu não apenas para cuidar da grande ferida na cabeça, mas também para curar a grande ferida no seu coração.

            Ainda não tinha percebido as bênçãos que Deus tinha lhe dado até ver todo o ministério de louvor ao pé de sua cama cantando. Não tinha percebido o quanto aquelas pessoas eram importantes até ver que elas de fato se importavam com ele. Não com sua aparência ou posição social, mas com o filho de Deus, Caio Acyolle. Definitivamente ele queria ser igual aquelas pessoas. Não igual às pessoas do Pub’s, não da escola, não da net, mas do povo mais feliz da terra, o povo de Deus.

          Leu a mensagem:

“Porque todo o que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado” Lucas 14.11 Desculpe-me, não me interprete mal, mas era isso que eu estava tentando te dizer esse tempo todo. Fiquei sabendo que o grupo de louvor te visitou e foi uma benção. Não pude ir por causa dos testes mas à tarde passo na tua casa. Te amo em Cristo, Camila”.

            “A Bíblia sabe o que fala, né?”- pensou; “Obrigado, Jesus, sei que não fui um bom menino, as quero acertar. Obrigado por que o Senhor sempre manda uma bóia quando nosso barco naufraga. Me ensina a te amar e a amar meus irmãos, quero amar mais do que eu mesmo e olhar ao meu redor, fora do meu prórpio umbigo, quero ser um cristão de verdade.”

            Com cabelo raspado graças aos ponto no corte, o ex-Narciso pegou o celular, abriu a agenda e digitou a letra “J”. Queria falar com alguém e sabia exatamente quem era a primeira pessoa que iria conversar sobre essa mudança de atitude…

BETTY

segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Faz tempo que postei aqui, e não foi por falta de tempo, foi falta de inspiração mesmo. Combinamos de início que isso seria um ferramenta para eu me expressas quando sentisse necessidade, e a necessidade veio agora. Aliás, é justamente sobre se expressar que eu queria falar.

No último dia 12, minha cantora preferida, Brooke Fraser, lançou seu mais novo cd, entitulado 'Flags'. Em meio à tanta música boa, queria destacar uma, que talvez não seja a melhor do álbum, mas que cabe muito bem no que eu quero falar. Vejamos

 




BETTY
BROOKE FRASER


Você tem uma fechadura ágil no seu frio coração
Você tem seus sapatos 'Yves Saint Laurent'
E uma marca de nascimento vermelha na forma do Canadá
Que você tenta manter em segredo

Você tem um caminhar rápido estalado
E um olhar duro e frio
E se seus olhos pudessem falar
Eles diriam que não se importam
Antes de eles se afastarem
Para se esconder em suas órbitas

Você tem suas cicatrizes
E você tem suas marcas de nascimento
Você tem Toronto escondida em seu quadril, querida
Você tem seus segredos
Você tem seus arrependimentos
Querida, todos nós temos

Você tem um plano à prova de tolos
Para uma vida solitária
Você não será filha de ninguém
E nem esposa de um homem bêbado
Se uma esposa em todo caso
É uma instituição estúpida,
Ou algo assim?, você continua insistindo.

Você é legal e modesta,
Pronta para dar uma volta, muito hip
É você que está escondida pelas expectativas
Nós queremos te ver,
Você não vai nos mostrar por onde começar?
Você está falando lixo com seus lábios vermelho-licor
É você que diverte a conversa
Doce Betty, não quer nos mostrar quem você é?

Betty é uma garota legal, sociável, divertida, mas que desenvolveu ao longo da vida um dispositivo de segurança na alma chamado excesso de intimidade. Só ela é íntima dela mesma. Ela vê as pessoas apenas como conceitos, presenças, mas nunca abre-se à possibilidade de deixar que elas sejam peças fundamentais em sua vida. Betty se sente auto-suficiente, ela já é o bastante pra si própria. Arrogante, você pode dizer, mas talvez não.

Posso afirmar isso porque, por mais de um ano, eu fui Betty.

Desde o início de 2009 escondi de praticamente todos ao meu redor uma doença psicossomática e eu descobri que isso era um erro fatal da pior forma possível.

Por todo esse tempo, tive que conviver com a síndrome do pânico em silêncio, me escondendo em mim mesmo, para evitar aborrecer os demais. Em minha mente, a doença era fraqueza da minha própria personalidade e eu teria que enfrentá-la sozinho, ninguém precisa juntar para si mais essa preocupação.

Vamos pedir auxílio à wikipedia para entender melhor o assunto:

"O transtorno do pânico ou síndrome do pânico é uma condição mental psiquiátrica que faz com que o indivíduo tenha ataques de pânico esporádicos, intensos e muitas vezes recorrentes..."
Ou site nos ajuda dizendo que "os sintomas são como uma preparação do corpo para alguma "coisa terrível". A reação natural é acionar os mecanismos de fuga. Diante do perigo, o organismo trata de aumentar a irrigação de sangue no cérebro e nos membros usados para fugir..."

Talvez eu pudesse escrever milhares de linhas para descrever qual é o sentimento, a sensação, mas você teria que sentir para realmente entender. No entanto, por experiência, desejo que em momento algum da sua vida você o sinta.

A questão é que, durante todo esse tempo, apenas 3 pessoas sabiam do meu problema, mas ainda assim eu as mantinha distantes dele, comentando apenas vagamente, dando idéia de que a situação estava totalmente sob controle.

Nós, Betty's somos assim, talvez por arrogância, pela auto-suficiência, pelo pensamento de que expressar fraquezas seja realmente ser fraco, pra evitar olhares de pena ou até por tentar "poupar" as demais de preocupações desnecessárias. Betty's possuem cicatrizes profundas e arrependimentos amargos como todos, mas evitam que os outros as conheça pra manter a aparência de força. Isso porque nós observamos os demais através da nossa própria ótica. Betty's pensam que precisam ser homens e mulheres de aço, que é isso que os faz admiráveis, isso precisa ser sustentado á qualquer custo.

Pobres e ignorantes Betty's, não imaginam que em algum momento seu belo castelo de cartas desmorona. Penso em alguém que passa muito tempo sustentando sozinho algo pesado demais para suas forças. Mais cedo ou mais tarde. É inevitável.

E, meus caros, minha hora chegou.

"Doce Betty, não quer nos mostrar quem você é?"

Há alguns meses, a solidão dentro da minha cabeça estava tão insustentável que desmoronou. A doença transforma seus sentimentos num furacão que não te permite diferenciar a realidade dos fatos e as fantasias criadas por suas condições psicológicas. Foi tão forte que passei 4 dias seguidos numa crise, calado, que culminou em eu, Betty, sendo achado por minha mãe e uma prima praticamente desacordado no banheiro da minha casa. Uma noite na emergência com uma sonda no nariz, uma lavagem estomacal que precedeu uma lavagem na alma.

Já era insustentável e Betty se revelou pra todo mundo da pior forma possível. O inevitável aconteceu, o castelo de Betty desmoronou ela estava ali totalmente exposta.
Mas, para a supresa de Betty, os olhares de pena, de condenação, de ser um peso para as pessoas não vieram, apenas uma onda enorme de amor. Dos mais diversos lugares, até dos não-considerados, apoio e amor.

Contar às pessoas meu problema não me curou da doença, mas me ensinou coisas muito importantes. Nossas cicatrizes e arrependimentos não são fraquezas, mas sinais das nossas batalhas. E todos nós as temos. As mais diferentes cicatrizes, mas todas vindas de experiências difíceis, de sofrimentos, de fraquezas.

Entenda-me, não estou te estimulando à sair divulgando em seus blogs seus segredo, isso seria uma burrice maior ainda, mas você precisa entender que todas as pessoas são feitas de forças e fraquezas e talvez você não esteja sozinho como você pensa. Com certeza existem pessoas ao seu redor, tão fracas e tão fortes quanto você totalmente dispostas à te dar apoio, à sustentar aquela coisa tão pesada junto com você.

Eu descobri que tenho dezenas delas. E agora vejo com mais clareza elas aqui, bem perto de mim, dentro do meu coração, e a força delas me ajuda a enfretar cada novo dia.

Talvez seu problema não seja tão sério quanto o meu, o talvez mais sério ainda, não importa, sempre haverá amor pra você. Apesar de tudo, a essência do Deus Vivo está em todos os seus filhos, e Ele é o amor.

"E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele." 1 João 4:16

Espero muito que algumas Betty's estejam me lendo nesse momento e, por favor, aprendam com minha experiência, vocês são todos lindos e fracos, todos.

"...você tem suas cicatrizes, [...] você tem seus segredos, você tem seus arrependimentos, querida, todos nós temos..."

~ news

Loading...

~ followers